Cinema – Cinema: Artigos e Críticas 
Por: Caio César Santos Gomes*
caiocsg20@hotmail.com

Uma cidade sem passado (Das Schreckliche Mädchen) é um filme alemão lançado em 1990 e tem direção de Michael Verhoven. O filme, baseado em fatos reais conta a história da jovem estudante alemã Sonia Rosenberger (Lena Stolze), que após ganhar um concurso de redações recebe uma proposta para participar de uma nova competição e para isso, deve escolher entre duas temáticas: Liberdade de expressão na Europa ou minha cidade natal durante o III Reich. Estimulada pelas histórias que ouvia desde criança, Sonia decide mostrar como a cidade e principalmente a Igreja se mantiveram íntegras durante o período do III Reich.

Uma das características da produção são os depoimentos dos personagens ao longo do filme. Cada um comenta sobre a pesquisa desenvolvida por Sonia o que dá ao filme uma característica de filme documentário. A própria Sonia é a narradora da história. Outra característica importante é o fato da primeira parte do filme, que mostra a infância e adolescência da protagonista ser em preto e branco e a segunda parte, o desenvolvimento da trama propriamente dita ser colorida. Essa característica é utilizada para chamar a atenção do espectador para a parte principal do filme, por isso as duas formas de exibição, uma um pouco monótona e outra mais chamativa.

 A trama começa quando a Sonia dá os primeiros passos em busca de informações sobre o passado, visitando instituições de pesquisa e ouvindo as versões das pessoas mais próximas sobre os fatos ocorridos na cidade durante o III Reich. Apesar da dedicação, as informações obtidas além de escassas, não oferecem os subsídios necessários para o desenvolvimento do projeto. As pessoas envolvidas se limitam a dar informações que possam contribuir para o desenvolvimento do trabalho, alegando não lembrar o que acontecia na cidade ou mencionando apenas as histórias que envolvem o prefeito da época pelo fato deste ser o “único” nazista declarado. Relembrar um passado marcado por situações traumatizantes é o mesmo que remexer em uma ferida que ainda não cicatrizou completamente. Sendo assim, o silêncio no filme surge como uma alternativa eficaz para o esquecimento de memórias desconfortáveis ou comprometedoras.

Até mesmo as primeiras instituições de pesquisa visitadas por Sonia fecharam suas portas para a estudante. As justificativas para a negação do acesso às fontes eram variadas. Por exemplo, o diretor do arquivo e biblioteca da Igreja alegou que lá só havia obras teológicas, portanto, de pouco valor informativo para os interesses da pesquisadora. Já a direção do jornal Pfilzinger Morgen, que havia permitido o acesso às fontes por um momento, justificou a proibição do acesso ao acervo pelo fato dos documentos estarem em processo de micro-filmagem. As restrições levavam em consideração o fato de Sonia demonstrar uma curiosidade aguçada pelo assunto e isso foi visto pelos que tentavam manter as lembranças do passado na escuridão como uma ameaça à manutenção da memória/história socialmente construída.

O trabalho desenvolvido por Sonia divide-se em dois momentos: o primeiro corresponde à competição para a qual a pesquisadora foi convidada a participar e o segundo, já com o prazo do concurso expirado é quando a protagonista faz da pesquisa uma causa social. Cabe salientar que a princípio, o trabalho não tinha como foco a memória vergonhosa a qual todos na cidade preferem ocultar. Inicialmente o objetivo era mostrar “a verdade” e como a cidade resistiu ao nazismo. Entretanto, o desdobramento da pesquisa revelou que muitos fatos da história da cidade foram ocultados, visto que muitos moradores demonstravam preocupação ao saber que a pesquisadora pretendia remexer no passado. Neste caso, o esquecimento é tomado como um elemento constitutivo da memória coletiva, um instrumento eficaz para apagar a memória vergonhosa, indizível ou proibida.

Além dos moradores da cidade de Pfilzing, algumas instituições sociais mostradas no filme desempenham papeis importantes para a manutenção do silêncio. O Estado (na figura das autoridades locais) aparece enquanto instrumento de controle da memória coletiva e para isso tem o apoio da igreja, da escola e das famílias, corroborando a ideia de que a memória coletiva, além de uma conquista das sociedades, é também um instrumento que confere poder. Na tentativa de impedir que o passado vergonhoso venha à tona, os moradores de Pfilzing não compactuam com as ideias da pesquisadora, que passa a ser hostilizada pelos compatriotas sob acusações de ser espiã, comunista e judia.

Apesar das adversidades Sonia não desiste de dar encaminhamento ao seu trabalho e para isso, em várias ocasiões precisa processar a própria cidade para ter acesso às fontes que necessitava para a elaboração da pesquisa. De posse dos documentos Sonia finalmente confirma suas suspeitas de que algo de ruim havia sido ocultado na cidade. Os motivos que levavam a população e as instituições sociais a tentar manter o passado na escuridão eram vários, desde a existência de campo de concentração na cidade a experimentos com seres humanos e até o envolvimento de dois padres (que ainda estavam vivos) na prisão de um judeu inocente. Após a revelação dos fatos e o reconhecimento da imprensa internacional pelo trabalho de revisão da história recente, Sonia passa da condição de vilã a heroína por ter mostrado a população de Pfilzing “a verdade que estava escondida”.

A trama de uma cidade sem passado revela questões inerentes à memória da 2ª Guerra Mundial, uma vez que, os fatos apresentados na produção referem-se ao período do III Reich. Entretanto, não é somente os fatos em si o que mais chama atenção no filme, mas também os mecanismos utilizados pelas instituições sociais da cidade na tentativa de silenciar a memória coletiva, memória esta que não tem nada de glorioso para se rememorado e comemorado. Pelo que se observa na produção, a construção da memória tem muito pouco a ver com o passado e tudo a ver com o presente, ou seja, apesar das informações serem originárias do passado a construção da memória coletiva ocorreu por meio do olhar e dos interesses do presente.

 O trabalho de revisão da história feito pela protagonista mostrou como se dá o processo de construção da memória coletiva, do esquecimento e do silêncio. Observa-se também que alguns indivíduos (no caso do filme, Sonia) muitas vezes teimam em rememorar aquilo que os protagonistas da memória coletiva (sociedade de Pfilzing) em um nível global se esforçam para minimizar ou até mesmo eliminar.

Uma cidade sem passado é um filme que potencializa as discussões atuais em torno das memórias silenciadas ou esquecidas. Além disso, mostra como a memória sobre o passado consiste em algo para ser rememorado ou esquecido visto que, na época em que se passa o filme, os alemães viviam um momento de vergonha pelos acontecimentos provocados pelo regime nazista.

FONTE:

Filme: Uma cidade sem passado.

Diretor: Michael Verhoeven

Ano e local de produção: 1990, Alemanha.

*Sobre o autor: Caio César Santos Gomes é graduado em História pela Universidade Tiradentes (2008) e Especialista em Ensino de História: novas abordagens pela Faculdade São Luís de França (2010)

Publicado em http://www.mnemocine.art.br/index.php?option=com_content&view=article&id=195:historia-memoria-e-silencio-no-filme-uma-cidade-sem-passado&catid=40:critica&Itemid=67

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