Relembrar os anos de chumbo é tão desconfortável quanto necessário no Brasil. A apresentação do filme Batismo de Sangue na noite de sábado (2 de abril) no Teatro Barracão, em Foz do Iguaçu, marcou a quarta edição do Cineclube Cinema Aberto com uma discussão sobre memória daquilo que uma nação não deve jamais esquecer.

Público na sessão "Batismo de Sangue"

Público na sessão "Batismo de Sangue"

Embora um jornal da grande imprensa tenha qualificado a ditadura brasileira como “ditabranda”, a realidade – como bem disse o autor do livro Onde Foi que Vocês Enterraram Nossos Mortos, Aluízio Palmar – é que “muitas cabeças foram cortadas” e ainda hoje vivemos as seqüelas daquele período de nossa história.

Fabrício e Aluízio

Professor Fabrício Pereira da Silva e o jornalista Aluízio Palmar

A tentativa da imprensa de promover um apagamento na memória coletiva não é motivo para estranhamento, tendo em mente os motivos que originaram a ditadura. Os grandes meios de comunicação servem aos interesses da classe dominante, portanto, banalizar o sofrimento de um povo cumpre o que se espera daqueles que fazem parte do jogo sujo. “Foi uma ditadura da burguesia contra o povo”, apontou Aluizio durante o debate.

Censura, tortura, assassinatos, estupros, prisões e outras tantas atrocidades cometidas contra o direito à liberdade deixaram marcas profundas tanto naqueles que viveram os anos de horror, conforme retratou o filme, como também na identidade cultural do País.  Grande parte dos episódios de preconceito e racismo existentes hoje em nossa sociedade são resquícios da ditadura.

Apesar do esforço de muitos setores em manter o assunto na memória vaga de um passado remoto, a exibição da película mostra que ainda há muito o que ser discutido. Um fato que merece destaque é a participação dos jovens e o interesse em debater o tema. “A realização desse filme é uma forma de manter a memória da ditadura viva”, destacou o professor de Ciência Política e Sociologia da Unila, Fabrício Pereira da Silva.

Teatro Barracão lotado

Teatro Barracão lotado

Por fim, para trazer a realidade mais próxima, Aluizio lembrou que alguns carrascos daquele período ainda circulam pelas ruas de Foz do Iguaçu impunemente. Lembrou ainda, que no histórico de parte da elite da cidade há indícios de que houve conluio com os militares.

De qualquer maneira, em Foz também houve e há resistência. É para confirmar isto que em breve novas iniciativas jogarão mais luz ao obscurantismo da história para fazer saber que a liberdade é uma conquista diária e necessária.

* Fernanda Regina da Cunha é jornalista em Foz do Iguaçu, PR.
Texto publicado no site Guatá – Cultura em Movimento.

Crédito imagem: Gilberto Xavier.

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